Connect with us

Cultura

Viva la Muerte: uma Mensagem Final

Published

on

 

Os Mão Morta voltam à Casa da Música no próximo dia 30 de Março, em digressão com o seu novo disco de estúdio, “Viva La Muerte”, com temas inéditos como “Liberdade”, “Deus, Pátria Autoridade” e o single que dá o nome ao álbum.

Mão Morta: a transformação da loucura

A banda

Pioneiros no panorama musical da época, os Mão Morta foram a primeira banda de rock “Avant-Garde” no país. Pela banda passaram muitas pessoas influentes e determinantes como Zé dos Eclipses ou Joaquim Pinto, mas é sobretudo a bateria de António Rafael, a guitarra de Miguel Pedro e a voz cavernícola de Adolfo Luxúria Canibal que levaram estes jovens irreverentes de Braga ao apogeu do rock alternativo português. Ao longo da sua história, e à descoberta constante de novos sons, lançaram vários álbuns e singles, tendo uma discografia que leva já 13 álbuns de estúdio em mais de 30 anos de carreira.

Mão Morta – Concerto em Lisboa – 1987

Uma Carreira de Metamorfoses

O marco da sua carreira,  e alegadamente o seu melhor álbum, foi Mutantes S.21. Neste vemos uma banda irreverente e as letras complexas e poéticas de Adolfo, com um foco na histeria e absurdidade humana. Viajando ao redor do globo, cada música representa uma cidade, e nela, alguém deambula ao relento, em busca de novas experiências e realidades. Foi um álbum totalmente desconcertante e avançado para a época, sendo ainda hoje visto como símbolo de uma poesia em constante mutação e de uma arte altamente incompreendida.

Com o tempo, os jovens irreverentes e politicamente interventivos, crescem e informam-se. Tornaram-se mais críticos e revoltados com o rumo da sociedade, como é comprovado por álbuns como Primavera de Destroços ou Nus, com uma sonoridade mais violenta e “pesada”, com letras consideravelmente mais gráficas e agoirentas.

No entanto, com o conhecimento e crescimento vem a maturidade e a percepção de que a calma, a observação e a ponderação são, muitas vezes, a solução para os problemas que sempre consideraram. Um espírito criativo brota dos anos de carreira e da experiência cultural. Seis anos depois, lançam o seu maior sucesso comercial, o álbum Pesadelo em Peluche com o seu tema mais bem-sucedido até à data, Novelos da Paixão. A partir daí, a banda voltou às origens, mas agora com os olhos já quase sexagenários de Adolfo. Numa ótica muito mais experimentalista e com uma visão um quanto surrealista, lançam álbuns como No fim era o Frio e Tricot, um álbum para uma peça de teatro.

Concerto em Almada – 1993

 

O projeto “Viva la Muerte”

Um Passado bem Presente

É com este legado e esta gradação artística que os Mão Morta chegam a 2025. Com uma consciência social enormíssima, uma vontade incessante de mudança, mas uma experiência de meia-idade, a banda lança o seu mais recente projeto: Viva la Muerte. A frase, ligada ao movimento falangista na guerra civil espanhola, expressa a vontade da fação fascista em controlar o país pela força. É esse autoritarismo, extremismo e exacerbação da pátria que os Mão Morta querem abordar e criticar.

Este álbum, à semelhança de Tricot, é análogo a uma peça de teatro. Nela, Adolfo, vestido a rigor com uma roupa militar, “fala ao povo” como líder. Ele, com a sua eloquência e linguagem populista, tenta controlar as massas, tal como os ditadores de outros tempos fariam. Enquanto isso, o povo, neste caso a audiência e um coro de soldados submissos ao “líder”, olha na sua direção com atenção e aprovação. É evidente, também, o contraste entre a sumptuosidade da alegoria e a simplicidade dos restantes membros da banda ao centro do palco, cuja sonoridade acompanha harmoniosamente a peça.

Papel Artístico

Como se percebe, este é um álbum um quanto ambicioso. No entanto, e sendo subjetivo, acredito que consegue conciliar, na perfeição, a vontade em representar um papel e em produzir música de qualidade. É uma peça de arte que foi feita para os palcos e, apesar da sua imensa qualidade musical, deve ser apreciada como uma fusão de vários métodos de expressão.

Quanto ao seu fim e análise temática, em Viva la Muerte não vemos os Mão Morta esquerdistas com uma abordagem surrealista e poética (para o bem ou mal) da nossa realidade. Este é sim, um banho de verdade. Um grito de liberdade contra o autoritarismo e os ventos do passado que cada vez mais se dispersam na Europa contemporânea. Um aviso às pessoas de que a liberdade de ver um concerto e de criticá-lo à saída, é um exercício constante de esforços, ganhos e perdas. Por isso, concluo que Viva La Muerte, além de mais um CD da banda bracarense, é uma passagem de testemunho para as pessoas. A mensagem final da banda ao público, veiculada da forma mais direta  e desprovida de barreiras linguísticas: “é proibido” se conformar.

Imagem 3: Digressão “Viva la Muerte” – Guimarães 2025

Concerto na Casa da Música

Como último concerto deste mês, os Mão Morta voltam ao Porto para celebrar este álbum, no próximo dia 30 de março às 21:30h, na Sala Suggia da Casa da Música. É uma oportunidade para a população da cidade, e em especial, a juventude da Universidade do Porto, não só conhecer esta banda tão marcante do final do sec. XX, como também ter uma visão distinta da nossa realidade e dos perigos que a define. Afinal, este álbum foi feito para quem fica. Para quem pode mudar o rumo dos acontecimentos com maturidade, ponderação e humanidade.

Os bilhetes podem ser encontrados no site oficial da Casa da Música!

 

Mão Morta na Casa da Música – 2017